Futebolês

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Re: Futebolês

Mensagempor nuno em Sexta Jul 09, 2010 3:51 am

estão os dois bons espero que a cada dia cresçam mais e que tenham boa sorte :peace:
nuno
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Re: Futebolês

Mensagempor blogue futebolês em Segunda Jul 12, 2010 4:20 pm

UM CAMPEÃO EM TIKI-TAKA

A Espanha é uma equipa possessiva. Toma conta da bola, do jogo e tira a iniciativa ao adversário. Os princípios são sempre os mesmos: conseguir a bola, girar, passá-la, trocá-la de pé para pé e progredir rumo à baliza contrária. Não há segredos, é simples. Contudo apesar de dominar, de estar a maior parte do tempo por cima do adversário, a selecção espanhola não é massacrante. É-o na posse de bola, sim, mas não em oportunidades de golo ou em caudal ofensivo. Falta isso, apenas isso, para que a Espanha possa deslumbrar. Neste Mundial não o fez: depois de uma entrada em falso, com o pé esquerdo frente à Suíça, superiorizou-se, lançou as suas teias sobre os adversários e galgou caminho até ao título mundial. Não sendo esplendora. Foi, isso sim, consistente e adulta. É a nova campeã!

Bate, bate e insiste. O ciclo espanhol repete-se. Uma, duas, três, as vezes que forem necessárias. Por isso lhe chamam tiki-taka. À Holanda, trilhando um percurso imaculado e repleto de boas prestações, importava retirar a bola aos espanhóis. Só assim, não deixando La Roja colocar em prática o seu jogo, que todos conhecem mas poucos conseguem parar, seria possível ganhar. Esta Holanda é uma equipa que sabe o que quer. E conhece-se: não sendo a Laranja Mecânica, não estando nesse pedestal, há quer ter outras armas, um colectivo forte e liberdade para o génio individual, capazes de resolver. Joga com alegria, voltada para a baliza contrária, circula a bola e procura espaços. Também é insistente. Tem um futebol positivo mas não vive obcecada pelos golos ou pelo espectáculo. O jogo ganha-se com equilíbrio.

Fiel às suas ideias, sem se atormentar com o peso do jogo, com toda a História sobre si, a Espanha entrou melhor. Teve a bola e colocou em prática a sua filosofia. Sergio Ramos, no sexto minuto, obrigou Stekelenburg, guarda-redes holandês, a uma bela defesa. Foi o primeiro ar de graça. O lateral espanhol, sempre com ímpeto atacante, voltou a criar perigo. Logo após foi David Villa, herói de jogos anteriores, a testar a pontaria. Nos primeiros quinze minutos, sem que a Holanda se tenha conseguido libertar, os espanhóis mandaram. Desde o início, logo após o primeiro pontapé, que a La Roja deixou bem claro que a bola estaria consigo. Passado esse período inicial, o jogo endureceu. Aumentaram as faltas, algumas bem ríspidas, as paragens, os muitos apitos de Howard Webb. Perdeu-se fluidez, dinâmica e ritmo. A Holanda, antes empurrada pela Espanha, agradeceu. Essa tendência só a favorecia. A sua estratégia passava por aí.

MUITO EQUILÍBRIO E POUCO GÉNIO

Numa final todos os lances são para aproveitar. John Heitinga, pelo menos, deve pensar assim. O central holandês, numa tentativa de devolver a bola à selecção espanhola com desportivismo, esteve perto de marcar. Casillas, com dificuldade, impediu-o. O jogo estava, por esta altura, estabilizado: Espanha sempre com mais bola, Holanda esperando uma oportunidade para atormentar a defesa espanhola. Teriam de aparecer os artistas, os grandes desequilibradores, para abanar a partida. Arjen Robben tentou: saiu da direita, flectiu para o meio, rematou com o pé esquerdo e, de novo, viu Casillas travar a marcha do remate. A Espanha começara melhor, abrandara depois, e a Holanda conseguira terminar a primeira parte com algum ascendente. O jogo teria de abrir, as duas equipas serem mais afoitas, expeditas e audaciosas. Desatar o nó em que estavam, no fundo.

Wesley Sneijder e Arjen Robben foram duas figuras de proa ao longo da época. Na selecção holandesa, nesta boa campanha, têm também papéis importantes. Um desenha, o outro conclui. A dupla funciona. No jogo com a Espanha, do gato e do rato, poderia fazer estragos. A primeira vez que surgiu, aos sessenta e dois minutos, esteve perto de o conseguir. Iker Casillas, um alerta de segurança máximo na baliza, impediu que Robben - displicente - colocasse a Holanda na frente. A Espanha fora atacada. Não se fica, teria que responder. Jesús Navas, lançado por Vicente del Bosque para o lugar de Pedrito Rodríguez, um joker desta vez sem os efeitos desejados, assumiu a jogada, lutou contra os holandeses, deu para David Villa e esperou que o matador concretizasse. Maarten Stekelenburg, não querendo perder o duelo de guarda-redes, agigantou-se e negou-o. Depois, foi Sergio Ramos quem voltou a criar perigo. A Espanha reaparecera.

UM PROLONGAMENTO MORNO ATÉ UM GOLO HISTÓRICO

Robben perdera frente a Casillas à primeira. Precisava de mais uma oportunidade para demonstrar que seria possível passar o portero espanhol. O extremo foi veloz, superou Puyol, isolou-se perante Casillas, tentou fintar e marcar. Não resultou e, afinal, entregou a bola. Fora a segunda chance. Não teria mais nenhuma. O tempo correu, ninguém marcou e ambas as selecções aceitaram o prolongamento. Não haveria volta a dar. Cesc Fàbregas, recém-entrado, deu o mote e Stekelenburg impôs-se bem. Com o acumular dos minutos começou a faltar discernimento, capacidade para discutir cada lance e ganhar a luta territorial. Os holandeses, sobretudo, sentiram-se em quebra. Os treinadores mexeram: Bert Van Marwijk lançou Van der Vaart, enquanto Del Bosque colocou Fernando Torres. Nenhum deles teve resultados práticos.

O prolongamento não destoou do que foi o jogo. Houve equilíbrio, sempre com maior iniciativa da Espanah, com poucas oportunidades de golo feito. A garra e o ímpeto mantiveram-se sempre. Afinal, trata-se de um título mundial. A Holanda, já sem rasgo e a mesma velocidade para colocar em perigo a defesa espanhola, sofreu um duro revés com a expulsão de Heitinga. O defesa holandês travou Iniesta - inteligente - e recebeu o segundo cartão amarelo. Para a selecção espanhola, tencionando aproveitar a superioridade numérica, funcionou como estímulo. Mais um esforço, mais minutos de iniciativa, circulação e, mais importante do que tudo, fogo. La Roja joga muito, troca muito a bola, mas marca pouco. Um golo bastaria. A quatro minutos do final, Andrés Iniesta recebeu a bola, encarou com Stekelenburg, colocou toda a fé no remate e foi feliz: a bola entrou, com força e colocação, na baliza holandesa. A Espanha colocou as mãos sobre o troféu. Sem largar.
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Re: Futebolês

Mensagempor blogue futebolês em Terça Jul 27, 2010 1:56 pm

Frio, distante e pouco mobilizador. Carlos Queiroz é assim. Será sempre o professor metódico, estudioso, observador e teórico. O seleccionador nacional acredita no seu trabalho. Percebe como joga o adversário e traça um plano de jogo, conhecendo as qualidades e os defeitos da sua equipa, para que tenha condições de ser bem-sucedido. O trabalho de Carlos Queiroz é lembrado sobretudo pelas conquistas de dois títulos mundiais de juniores. Contudo, enquanto treinador principal de equipas de topo, em seniores, Queiroz nunca teve realmente sucesso. Vive até com o estigma de pé-frio. E talvez seja um pouco. Portugal, no Mundial 2010, ficou-se por um nível razoável. Não se pode dizer que tenha sido um fracasso, porque a passagem aos oitavos-de-final, o objectivo principal, foi conseguida com comodidade, mas também ficou bem longe do que os adeptos queriam e a selecção nacional podia. Sobretudo devido à postura utilizada.

Em tudo são necessárias rupturas. Quando algo não está bem, o balanço é mau e é imperativo adoptar outra mentalidade, totalmente diferente, romper com o passado aparece como única via possível a seguir. Há, contudo, situações em que uma ruptura, alterando a filosofia, não é o mais indicado para o presente. Luiz Filipe Scolari, campeão mundial na Ásia pelo Brasil, chegou a Portugal com a missão de virar a página. A selecção portuguesa, indisciplinada e fracassada no Mundial, necessitava de mudanças profundas. Com outros rostos, com outros métodos, com outras ideias. Scolari, o Sargentão, chegou com força, impôs-se, mesmo encontrou guerrilhas, e construiu na selecção nacional um núcleo duro que protegeu e guardou até ao fim. Nunca teve uma preocupação com o futuro, com a renovação da equipa, com o facto de muitos dos principais elementos, os últimos resistentes da Geração de Ouro, estarem próximos de abandonar.

Luiz Filipe Scolari foi um treinador contratado para obter resultados imediatos. Portugal não conseguiu nenhum título, sim, mas foi vice-campeão europeu, desperdiçando uma oportunidade única de entrar verdadeiramente na História, e conseguiu um honroso quarto lugar no Campeonato do Mundo de 2006. Ficou para trás toda a decepção e todos os problemas resultantes do Mundial da Ásia. Um dos principais méritos do seleccionador brasileiro esteve na forma como soube lidar com a mente dos jogadores e dos adeptos portugueses. Mostrou fé, alma, pediu bandeiras na janela, puxou pelo país, colocou o futebol no centro das prioridades e, aproveitando o facto de Portugal ter ganho a realização do Europeu de 2004, foi capaz de criar uma gigantesca onda de apoio aos jogadores. O carácter, a ambição e a chama da selecção nacional foi notória. E serviu, em muitos momentos, para vencer. Só que aos poucos foi-se perdendo.

O futebol, como tudo, é feito de ciclos. O de Scolari chegou ao fim em 2008. O futebol português entrara numa quebra, a selecção ressentiu-se. O seleccionador deixou de ter a mesma disponibilidade. No Europeu, onde Portugal partia com esperança de voltar a chegar à final, a selecção nacional ficou-se pelos oitavos-de-final, caindo aos pés da Alemanha. O reinado de Scolari, com tudo de bom e mau que isso significa, terminara. Foi principalmente após a saída do treinador brasileiro que se levantaram as maiores interrogações em torno da selecção portuguesa: como seria sem Figo, sem Rui Costa, sem Pauleta, sem Costinha, sem tantos outros de elevada importância para Luiz Filipe Scolari? O futebol português caracteriza-se, além disso, pela sua importação. O expoente máximo da falta de recursos existentes em Portugal foi a inclusão, ainda sob o leme de Scolari, de Deco e Pepe, brasileiros naturalizados portugueses.

A saída de Scolari é uma boa situação, leitor, de onde não é necessário ruptura. Apesar de nada ter conquistado, com Felipão, Portugal ganhara um novo fôlego e abrira horizontes. No entanto, como já se disse, deixara a formação para trás. Daí que, por exemplo, a posição de avançado e de lateral-esquerdo se afigurassem como duas das maiores preocupações. Importava, sim, preencher essa lacunas, nunca romper com o passado - afinal, fora um bom trajecto e o caminho a ser seguido passaria, acima de tudo, pela cimentação e fortalecimento da posição da selecção nacional. Ao contratar Carlos Queiroz, a Federação Portuguesa de Futebol demonstrou essa preocupação: o treinador português trabalha bem com jovens, tem experiência e seria a pessoa indicada para renovar a selecção nacional. Para isso precisaria de tempo e margem de manobra. A verdade, porém, é que Queiroz nunca a teve. Entrou logo em competição a doer.

Scolari é um homem de paixões. Emotivo, impulsivo e mobilizador. Carlos Queiroz é o contrário: mais frio, mais pragmático, mais ponderado e mais contido. Toda a onda de entusiamo que se criara com o treinador brasileiro, embora diminuindo com o tempo, perdeu-se definitivamente com a entrada de Queiroz. Mesmo quando o horizonte de Portugal pareceu verdadeiramente negro, sem a África do Sul pelo caminho, Carlos Queiroz manteve a esperança de como, no final, Portugal conseguiria o seu objectivo. Poderia ser o único a pensá-lo, mas estava confiante porque acredita no que faz. O problema é que a maioria dos adeptos portugueses, fervorosos e apaixonados, tinham em si instalada a descrença. Mas Portugal, com tropeções e quedas no caminho, conseguiu apurar-se para o Mundial. Foi bom, o objectivo alcançado, apesar dos percalços. A fé, contudo, perdera-se.

UMA AMBIÇÃO DISFARÇADA E UMA QUESTÃO PARA O FUTURO

A divulgação dos vinte e três eleitos para o Mundial da África do Sul foi um prenúncio: jogar à defesa. E confirmou-se. Portugal encontrou adversários fortes, excepção feita à Coreia do Norte, motivadores de todo o respeito - Costa do Marfim é uma selecção que se equivale à portuguesa, Brasil e Espanha estão acima. Em todos eles, a estratégia foi a mesma: equipa expectante, pragmática, esperando pelas investidas do adversário para, em velocidade, tentar surpreender e ser feliz. Na fase de grupos, resultou. Num jogo a eliminar, ainda por cima com a Espanha, uma selecção maníaca pela bola, nunca poderia. Carlos Queiroz tinha prometido maior ousadia, maior ambição e maior coragem. Portugal não a teve. Daí que entre os adeptos, e também entre os jogadores, tenha ficado um sabor a pouco. Não foi mau de todo, isso seria ficar na fase de grupos, mas... poderia ter sido bem melhor. A selecção foi, no fundo, um reflexo do treinador.

Ao futebol da selecção nacional, demasiadamente pensado e sem rasgos de génio, faltou um abanão. O plano de contenção traçado por Carlos Queiroz, privilegiando a coesão defensiva, roçou o brilhantismo. Só que faltou astúcia para chegar mais longe. Entre guardar um nulo ou arriscar para ganhar, Portugal sempre preferiu não se desfazer da sua estratégia. Mais do que tudo, seria necessário deixar as amarras, dar liberdade ao génio individual, quebrar o pragmatismo e correr os riscos necessários. O resultado poderia ser o mesmo ou, talvez, ainda pior. Mas todos ficariam com a sensação de ter cumprido o seu dever. Algo que não aconteceu desta vez. Em Carlos Queiroz, como em Cristiano Ronaldo, a maior figura portuguesa e de quem mais se exige, caíram todas as responsabilidades. O capitão voltou a estar mal no relvado, não reagiu bem e recebeu inúmeras críticas. O treinador foi colocado em xeque. E perdeu espaço.

A imagem de Carlos Queiroz, sempre procurando transparecer serenidade e confiança, ficou, a cada momento, mais fragilizada. Numa primeira fase, ainda na África do Sul, surgiram as críticas públicas por parte de Deco, o discurso desarticulado com Hugo Almeida e as palavras amargas de Ronaldo. Já depois de feito o rescaldo, em solo português, foi atribuída a Queiroz uma frase dura, cáustica e desconcertante, onde o seleccionador acusou a estrutura federativa de amadorismo - algo que motivou uma resposta violentíssima do seleccionador. Agora, já depois de ter sido conhecida a verba monetária a receber pelo seleccionador, surge, referido como se tratando de "matéria delicada", a abertura de um inquérito disciplinar, sob alçada do Instituto do Desporto de Portugal e da Federação Portuguesa de Futebol, devido a um comportamento incorrecto da parte de Carlos Queiroz para com os médicos que realizam os testes anti-doping.

Seja provado ou não o tal comportamento incorrecto do seleccionador ainda na Covilhã, sejam ou não acertadas as críticas dos jogadores, seja ou não verdade a declaração sobre o "amadorismo" existente na Federação Portuguesa de Futebol, a imagem de Carlos Queiroz sai extremamente prejudicada. Junto dos adeptos, pelo menos de uma grande parte deles, Queiroz é um seleccionador muitíssimo bem pago (auferindo, por ano, uma verba de um milhão e seiscentos mil euros) e que pouco conseguiu no Mundial 2010. Com todas as polémicas existentes, Queiroz fica descredibilizado, perdendo a cada passo margem de manobra e, até pelas palavras dos jogadores, sem as condições ideais para conseguir juntar as duas partes do seu trabalho: renovar a selecção nacional e fortalecê-la rumo ao Europeu de 2012. A pergunta que se impõe neste momento é simples e incisiva: terá Carlos Queiroz condições para o fazer?
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Re: Futebolês

Mensagempor blogue futebolês em Segunda Ago 23, 2010 6:51 pm

No futebol não há espaço a erros. Ou melhor: é um jogo de erros mas ninguém pode errar. Parece confuso. Não é, até é bem simples. Em campo estão humanos, obrigados a decidir em poucos segundos, tendo de mostrar talento, de funcionar como se fossem robots. Um erro, em futebol, é um pecado capital. Mas se não houvesse erros, o jogo perdia interesse. O adversário fartava-se de lutar, de correr, de insistir e nada. Tudo corria bem, não se abriam brechas, rolava tudo na maior perfeição. Qualquer treinador quer um guarda-redes que defenda tudo, o que pode e o que não pode, que tenha uma defesa semelhante a um muro de betão, um meio-campo mágico e capaz de passes de ruptura para um avançado, tipo Lucky Luke, que não desperdiça uma. Era um sonho. Utópico como é a maioria dos sonhos. Conclusão: o futebol, para ser futebol, tem que ter erros. Vá lá, chegamos a um ponto em que não há muita discussão.

Os erros estão lá. Nos árbitros, nos jogadores, nos treinadores. A estratégia de uma equipa que sabe que tem erros, além de os procurar esconder e superar, é fazer saltar à vista os erros alheios. Depois aproveita-os e conclui. Daí que por vezes, mesmo sem ter que fazer muito para isso, lhe caia uma oportunidade do céu. Não pára para agradecer, nem precisa, basta aproveitar. É aí precisamente que está o ganho. Um irá vencer, o outro perder. E logo a seguir tudo se altera, o estado de graça passa para o adversário, os problemas dos outros instalam-se, tudo fica de pernas para o ar e o mar de rosas agita-se numa rebelião sem fim. Não há muito a fazer com isso. E é o que está a acontecer ao Benfica. Foi campeão no ano passado, trucidou a concorrência, passou um rolo compressor por cima de muitos adversários, sem dar espaço para reacção, caminhou triunfante. Agora as coisas não resultam.

Os que antes estavam subjugados, colocados debaixo da força que o Benfica possuía, ficam agora por cima. É estranho, quase ninguém o esperaria, que um campeão meritório comece a nova temporada a perder. Na Supertaça e nas duas primeiras jornadas do campeonato. As perdas de Di María e Ramires, a explosão em dribles sucessivos e o equilíbrio reinante na equipa, afectaram. O Benfica perdeu-os, nota-se, sente-se e agudiza-se. Jorge Jesus tenta preencher as lacunas, coloca jogadores novos, substitutos, mas nenhum deles produz o rendimento dos outros dois. Porque não há jogadores iguais. No ano passado tudo encaixou com harmonia, sucesso e categoria. Agora custa mais. Para já custou um troféu e seis pontos. O Benfica há-de arrancar, voltar a ganhar, readquir força. Isso não se questiona. E é suportado pela ideia de que o futebol, em pouco tempo, muda tudo.

Vamos a mais um exemplo. Há algumas semanas, não mais do que três, o Benfica estava na linha da frente para o título. Jorge Jesus, pela pré-época realizada, mantinha o estado de graça, pretendendo ser uma confirmação, com estabilidade para os encarnados voltarem a conquistar o título. Agora é diferente. Estamos a vinte e três de Agosto: o Benfica tem duas derrotas no campeonato, está sem pontos, enquanto o FC Porto, o novo dragão de André Villas Boas, antes olhado com desconfiança e, depois, cada vez mais confortável à frente dos portistas, venceu o duelo na Supertaça e lidera com seis pontos. Daqui a algum tempo, porventura, tudo estará mudado. Mais uma vez. Daí que estas análises sejam precoces, pouco fiáveis e, sobretudo, momentênas. Neste momento, e sublinhe-se o neste momento, o FC Porto está melhor e promete crescer e o Benfica, antes de mais, procura erguer-se afastando os azares.

Ora, azares. Não está escrito no início, porque não veio ao assunto, mas vem agora: o futebol é um jogo de sorte e azar. Por muito que defendam que não. Sem sorte, sem aquela pontinha de felicidade, nenhuma equipa chega ao sucesso. Por isso lhe chamam estrelinha de campeão. É isso que o Benfica não tem tido nesta primeira fase da época. Mas tem-lhe sobrado azar. Na baliza, principalmente. Não há como não o referir, mesmo sendo um assunto recorrente, batido como poucos. Roberto Jiménez é um caso sério de estudo. Pelo preço que o Benfica pagou por ele, pelas qualidades que demonstrou no Saragoça, mesmo sendo dimensões incomparáveis, por somar erros no Benfica. Está nervoso, treme por tudo quanto é sítio, não transmite confiança - e aqui, isto da confiança, é recíproco: a equipa não tem em Roberto, Roberto não tem na equipa. Jorge Jesus insiste que terá sucesso. A aposta está cada vez mais perdida.

O Benfica tem errado: a defesa não é mandona como antes, o meio-campo não cria tantas rupturas, o ataque, antes letal com Cardozo e Saviola, esbarra nos adversários. Só que Roberto Jiménez é o guarda-redes. Por isso, os tais erros de que se falava acima, são muito mais notados. Não pode perder a bola, não a pode colocar mal, não pode confiar no golpe de vista. Roberto está demasiado verde, com muitos tremeliques e falhas, para assumir a baliza de um clube que luta pelo título. Pode vir a ser um fenómeno. Agora não é. E vem-nos à memória uma frase batida: hoje é o primeiro dia do resto da tua vida. No caso do Benfica, na baliza, deverá ser mesmo. Jorge Jesus, para não arriscar demasiado a carreira do clube, terá de tomar a melhor decisão em prol da equipa. Percebe-se que a dispensa de Quim correu mal - aposto que, não fosse a lesão, estaria às gargalhadas. Quim não era excelente mas era bom.

As derrotas acentuam os erros. Por exemplo: ontem, no Dragão, Radamel Falcao, isolado perante o guarda-redes, desperdiçou dois golos feitos. Um com o pé, o outro com a cabeça. Só que, por essa altura, já marcara um, o primeiro, antes de Belluschi tranquilizar a equipa. Logo após as perdas, voltou a marcar. Bisou, o FC Porto ganhou e o dragão caminha alegre: está no topo, continua a crescer e os rivais perdem pontos. Falcao é um avançado de enorme qualidade. Mas também falha. Poderia ter sido fatal. Não foi e Radamel sorri. As vitórias trazem confiança, alegria, vontade de querer sempre mais e mais. As derrotas abalam, podem originar mais desaires, acentuam a descrença e a incapacidade. Roberto vive isso. Porque o Benfica, para já, também. Tal como o Sporting, por exemplo, que joga sob brasas. Aí os erros estão mais próximos de acontecer e são mais difícies de esconder. A melhor forma de ter sucesso é... ganhar sempre.
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Re: Futebolês

Mensagempor blogue futebolês em Segunda Ago 30, 2010 10:50 pm

O Mundial para trás, a polémica, que parece interminável em torno de Carlos Queiroz, devidamente comentada, sempre com sentido crítico que se mistura com a realidade pura e dura, até chegar à nova edição do campeonato português. O FC Porto arrancou melhor, está mais ousado, pretende reassentar o seu domínio, mas o Benfica é o campeão, ganhou com mérito no ano passado, quer estabilizar e dar seguimento às conquistas. "Parte na pole-position, as duas primeiras jornadas não me alteram a opinião", avança Pedro Azevedo. Na segunda parte da entrevista ao FUTEBOLÊS, já com a selecção para trás, uma antevisão ao novo campeonato. De um Benfica que parte na frente para ser campeão, com um FC Porto em busca de uma nova identidade que traga títulos, um Sp.Braga na forja para ser um novo grande até um Sporting que deixa muitas dúvidas para o futuro. E um campeonato que precisa de um abanão.

FUTEBOLÊS: Mesmo começando com em falso, o Benfica mantém-se na pole-position na corrida ao título?
PEDRO AZEVEDO: O Benfica é favorito, mantenho, apesar destas duas derrotas iniciais: traz o elã de uma época muito boa, sensacional depois de um jejum de cinco anos, um campeonato em que o Benfica foi um campeão convincente, que não tinha sido no ano do Trapattoni [2005] - nessa época foi mais um campeonato perdido pelo FC Porto do que ganho pelo Benfica -, foi a melhor equipa, apesar da boa réplica do Sp.Braga, tendo uma excelente equipa. Neste ano mantém o mesmo treinador, praticamente os mesmos jogadores. O Di María é uma baixa que vai ser colmatada pelo Gaitán, em quem eu deposito muitas esperanças, acho que é muito bom jogador. Ainda vão chegar jogadores para o Benfica. O guarda-redes foi um erro de casting, foi mal contratado...

F: É um caso psicológico?
PA: Não, não. O Roberto nunca foi um indiscutível em clube nenhum, fez apenas seis meses agradáveis na última Liga Espanhola, não acredito que seja bom guarda-redes. Não acredito. É grande em altura mas não é grande guarda-redes. Foi muito caro, custou o mesmo que Petr Cech ao Chelsea, por exemplo, acho muito caro... O Benfica deveria ter ido buscar o Eduardo ao Sp.Braga. Pela confiança que o treinador tem nele, porque o Jorge Jesus foi treinador do Eduardo em Braga, conhece-o melhor do que ninguém e, por metade do preço, deveria ter apostado nessa contratação. Falhou, mas eu estou convencido de que ainda vai contratar um nestes dias que faltam para o encerramento do mercado - e vai ter mais um ou dois jogadores. E vai lutar pelo título, é o grande candidato. Estas duas derrotas não me dizem absolutamente nada, não me alteram a opinião: o Benfica parte na pole-position.

F: Quem se segue?
PA: O FC Porto aparece no segundo lugar desta ordem de favoritos. Muito bem reforçado com o João Moutinho - que ainda não mostrou nada e é o médio que está em pior forma neste momento mas acho que é um excelente reforço -, que é um jogador de mão cheia, que faz todas as épocas sem leões, é um sempre-em-pé, tem muito coração, qualidade técnica... É um jogador à Porto. O central argentino, Otamendi, é um grande jogador, vai ser uma das grandes revelações deste campeonato. Helton também está em excelente forma neste início de época, vai querer regressar à selecção do Brasil, a última temporada dele não foi boa. O meio-campo tem mais soluções, o banco também e há ainda um aspecto muito importante que o FC Porto tem e não possuía no ano passado: versatilidade táctica. A equipa está a utilizar dois/três sistemas tácticos por jogo, não alterando o seu modelo mas alterando o sistema, porque são coisas diferentes, está a conseguir fazê-lo com êxito, coisa que o Jesualdo, em quatro anos, nunca conseguiu: o FC Porto jogou sempre em quatro-três-três, salvo uma ou outra excepção, era uma equipa muito previsível e isso notou-se.

F: Atrás: Sp.Braga ou Sporting?
PA: Eu estava convencido de que o Sp.Braga iria, neste início de temporada, não digo quebrar, mas apresentar uma qualidade de jogo inferior à do ano passado, devido a algumas saídas importantes. Mas não. O Sp.Braga reforçou-se muito bem, com muitas discrição e muita eficiência, com jogadores de muito boa qualidade, está muito bem orientado, porque o Domingos é um treinador que começa a afirmar-se, e inicia a época muitíssimo bem. Afastar Celtic e Sevilha é um mérito muito grande do Sp.Braga, que pode dar um fôlego importante para a temporada. Não acredito na sua presença nos dois primeiros lugares, como favorito neste campeonato, porque vai ser muito difícil ao Sp.Braga manter no campeonato o rendimento do ano passado, devido à presença Liga dos Campeões que irá desgastar, sendo que não tem nem a carteira nem as soluções do Benfica e do FC Porto. Portanto, não acredito que vá ficar nos dois primeiros, mas vai discutir o terceiro lugar. E vai fazê-lo com o Sporting, estando um bocadinho mais adiantado. Nesta grelha de partida, digamos assim, o Sporting está em quarto lugar na corrida ao título que não tem mais nenhum candidato. Os outros vão lutar pela permanência e para se transformarem nos outsiders que o campeonato é tão pródigo.

F: Sporting e Sp.Braga estão em planos opostos: um perde força e o outro cresce a cada dia?
PA: Estão, estão. Esta injecção de sete milhões e duzentos mil euros, que o Sp.Braga vai invariavelmente buscar com os jogos e os pontos da Liga dos Campeões, tornará o clube mais forte, dará maior dimensão ao Sp.Braga, mesmo em força social - porque estão a entrar muitos sócios nos últimos dias, devido a este fenómeno fantástico e inédito de estar numa edição da Champions. Vai aproximar-se dos três grandes. O Sporting tem vindo a perder tudo: adeptos, até lugares anuais, como rezam os dados da última época, e espaço entre os candidatos ao título. A última época foi um desastre e este ano, apesar deste resultado na Dinamarca, eu continuo a colocar muitas reticências. Primeiro, porque Liedson é um jogador em declínio, se continuar a jogar assim irá fazer poucos golos e acho, até, que não é, neste momento, o melhor ponta-de-lança do Sporting. Noto, depois, que tem menos Academia, ou seja, menos identidade e mais idade. Tem uma equipa de jogadores mais idosos... [pausa]

F: Idosos, como quem diz...
PA: [risos] Idosos, neste caso, com mais idade!... Não se confunda com jogadores perto da reforma [risos]. Tenho muitas dúvidas sobre este Sporting. Muitas dúvidas, muitas dúvidas.

F: Até onde pode ir o Sporting nesta época?
PA: Vai lutar pelo terceiro ou quarto lugar, não acredito que passe dessa fasquia. Aliás, o Sporting tem ainda problemas de plantel, está a tentar contratar mais dois ou três jogadores até quarta-feira [dia de encerramento do mercado], o que eu não acredito, porque há problemas financeiros que são claros. O Sporting não tem liquidez, não tem gerado receitas e, portanto, vai ter muitos problemas para satisfazer as pretensões do treinador - que passam por um guarda-redes, fundamentalmente por um ponta-de-lança e ainda mais um jogador, ele terá pedido três, mas provavelmente não vai ser possível satisfazer os pedidos do Paulo Sérgio...

F: O que falta ao Sp.Braga para ser considerado um grande?
PA: Falta dar continuidade a estes resultados, confirmando-os num futuro próximo. Se o Sp.Braga continuar a ser uma equipa de Liga dos Campeões ou de Liga Europa e se conseguir continuar a lutar, dando réplica aos três grandes, pela conquista do título... É importante recordar que o Sp.Braga esteve praticamente até ao último apito da Primeira Liga do ano passado a lutar pelo campeonato nacional, embora na última jornada as possibilidades já fossem muito remotas. O Sp.Braga também tem sido um clube vendedor - mostra olho para o negócio: compra barato e vende bem -, juntando às receitas que irá ter na Liga dos Campeões, além de mostrar que é um clube com uma boa organização, tem prospecção muito competente, tem um bom departamento de comunicação entregue ao Ricardo Lemos, um ex-colega meu, que é também um profissional competente. Sinceramente, desconheço as aptidões do Fernando Couto para este novo cargo, mas teve até agora o Carlos Freitas e muitos destes jogadores que o Sp.Braga contratou este ano ainda vieram por seu intermédio - este defesa-esquerdo, Elderson, acho que é um excelente jogador e chegou a custo zero. Portanto, acredito que o Sp.Braga, com esta estrutura, com esta organização e se confirmar os resultados, vai ser, finalmente, o quatro grande. E penso que vai ser bom para o futebol português.

F: Mesmo tendo sido uma aposta de altíssimo risco, a chegada de André Villas Boas foi um tónico para despertar o FC Porto?
PA: O Jesualdo Ferreira foi embora do FC Porto, porque já não tinha ambiente, já não tinha cumplicidade dos sócios, já não tinha entourage dentro do Dragão. O FC Porto tem uma noção muito boa do que é o futebol-negócio e é preciso vender lugares anuais, despertar o clube, despertar os sócios e, portanto, era importante mudar depois de quatro anos, de um ciclo enorme que nunca tinha acontecido no FC Porto com um treinador. E, por isso, mudou. Também, claro, porque os resultados não foram os pretendidos, ficar em terceiro no campeonato só aconteceu três vezes na era Pinto da Costa, que leva vinte e oito anos de presidente. Quando se muda, depois desta conclusão a propósito do treinador que sai, não há muito a perder, só há a ganhar e o FC Porto aposta nisso: no que há a ganhar.

F: Mas ficar dois anos sem conquistar o campeonato não será "perigoso"?
PA: É perigoso, sem dúvida, mas um bom início de época também era um catalisador importante para o clube, para os jogadores, para a equipa técnica e para os adeptos, e o FC Porto está a ter um excelente arranque. Reforçou-se bem, já o disse. O Walter é um jogador muito interessante, o Souza é um jogador de futuro, o João Moutinho é um grande jogador, vai ser o ano da afirmação do Rúben Micael, vai ser o ano da afirmação de Belluschi, que está mais do que visto que não era um jogador...

F: ...adaptado?
PA: Não era adaptado, era um jogador que não gostava do treinador e o treinador não gostava dele. Acabou também algum jogo de confiança excessiva do Bruno Alves, que até livres marcava no FC Porto, uma coisa incrível quando se tem Hulk e Belluschi... E, como não havia nada a perder, há que contratar um treinador com o qual o FC Porto só teria a ganhar. O André Villas Boas é portistas, tem um percurso dentro do clube que o Pinto da Costa conhecia, o trabalho que lhe foi devido dentro do FC Porto foi um trabalho que lhe foi reconhecido e apreciado, além de que tem a escola do Bobby Robson, com quem começou, e a escola do Mourinho, com quem continuou, sempre na observação de jogos, sempre muito criterioso, interessado e a revelar uma boa tendência para a táctica, para a escolha de jogadores. Como o FC Porto na altura [em 2002], apostou no José Mourinho, que era um treinador em que poucos acreditariam e deu no que deu, esta aposta tem muito a ver com isso. Pessoalmente, estou convencido de que vai ser um bom treinador.

F: As duas primeiras jornadas podem ser um bom prenúncio para o campeonato mais competitivo capaz de afastar posturas excessivamente defensivas?
PA: Não, acho que este campeonato vai ser igual aos outros. Estas duas primeiras jornadas não têm sido muito diferentes: poucos golos, uma fase ainda de alguns receios, as equipas ainda estão a assentar a poeira, houve mudanças de jogadores, por isso estou convencido de que não vão existir mudanças. Três mais um na luta pelo título, os tais três clássicos e o Sp.Braga, mas no resto acho que vai ser igual.

F: Falta um abanão ao futebol português?
PA: Acho que o futebol português tem que rever a política dos preços. Por um lado, toda a gente quer mais público nos estádios mas, por outro, ninguém baixa o preço aos bilhetes... Isto é um incoerência. E, depois, promover o espectáculo: acabar com os blackouts, sejam camuflados ou não, dar mais liberdade aos jogadores para promoverem o espectáculo, tal como a todos os agentes do futebol, até os árbitros, para falar pela positiva do espectáculo. Talvez esse seja o abanão que o futebol português precisa, olhar um bocadinho para a Espanha - toda a gente promove o espectáculo, até há polémica mas com participação dos intervenientes, em que exprimem as suas ideias, vive-se muito o jogo durante a semana, em Portugal dá a impressão que o jogo é apenas vivido naqueles noventa minutos em que os jogadores andam ali à procura das balizas. O futebol tem que ser vivido sete dias por semana, com entusiasmo, com raça, com paixão, para os estádio encherem, com preços dos bilhetes mais baratos, porque, de resto, o futebol português não pode muito melhorar muito mais, porque não tem condições económicas para isso.

F: A participação da selecção foi um reflexo, em termos de postura, do campeonato português?
PA: Não. A selecção portuguesa quantos jogadores tinha que jogassem cá em Portugal? Poucos. Não tem a ver uma coisa com a outra. O que falhou na selecção anteriormente foi o que já disse anteriormente. O seleccionador tinha dos melhores jogadores do Mundo mas não conseguiu ter um grande equipa. Isto é apenas o dedo do treinador, não pode ser mais nada. Não pode!
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